ESPECIAL

Allan dos Santos, o exilado da ditadura brasileira

Paulo Briguet · 27 de Setembro de 2022 às 17:23

Em conversa exclusiva com o BSM, o jornalista Allan dos Santos fala sobre a dor da vida no exílio e a preocupação com os rumos do Brasil
 



O jornalista Allan dos Santos, primeiro exilado da República Socialista do Brasil, vive em algum lugar da América – e espera. Espera o dia de reencontrar sua família, de abraçar sua esposa e seus filhos, de ganhar a vida sem a ameaça permanente da censura e da perseguição. Allan aprendeu a cultivar um tipo de esperança sem ilusões, uma esperança de quem contempla a realidade e se recusa ao autoengano. No coração, ele traz as lições do seu amigo e mestre Olavo de Carvalho, e de tantos outros heróis que amaram sua pátria na distância do exílio – José Bonifácio, Joaquim Nabuco, Eduardo Prado, Princesa Isabel, Alexandr Soljenítsin. Allan tem algo em comum com o autor de Arquipélago Gulag: o motivo de sua condenação pelo regime socialista. Poucos se lembram disso, mas Soljenítsin, então capitão do exército russo, foi condenado a dez anos de trabalho forçado por escrever “palavras desrespeitosas” em correspondências privadas. No caso, eram críticas às decisões do ditador Josef Stálin. Dez anos no campo de concentração por um punhado de frases incômodas: é assim que o socialismo trata os seus inimigos.

Em dezembro, Allan completará dois anos e meio sem ver a família de perto. Em maio de 2020, quando a Polícia Federal invadiu casa do fundador do Terça Livre e um agente apontou o fuzil para Carol, sua mulher grávida, era Pedro quem estava dentro daquela barriga.

– O Pedro eu só peguei no colo. Hoje ele fala, anda, corre. Mas eu não estou ao lado dele, e isso dói.

Teresa, de 4 anos, a filha mais velha de Allan, ainda está em tratamento de saúde, depois de sobreviver por milagre a uma meningite encefálica depois de tomar uma vacina contra herpes. Ela sofreu uma infecção no cérebro, que foi debelada, mas causou muitos problemas. Tetê ainda não come, não bebe, não anda, não fala. Alimenta-se por sonda.

– Graças a Deus ela tem a Carol e os meus sogros ao lado para cuidar dela, mas não vou negar que é uma situação muito difícil para mim.

Allan ainda não tem autorização para trabalhar nos Estados Unidos. Ele sobrevive com a ajuda de alguns poucos amigos e dos assinantes de suas páginas na internet, que Alexandre de Moraes permanentemente tenta derrubar. Eis uma diferença entre o exílio na época da ditadura militar e o exílio na época de ditadura militante: agora, os perseguidores usam a tecnologia para cortar os meios de sobrevivência de suas vítimas. Para os ditadores de toga, não basta o exílio – tem que passar fome.

– Eu ainda não tenho permissão para ter um emprego regular aqui, e preciso fazer tudo dentro da lei. Se pudesse, já estaria trabalhando na construção civil, ou como entregador, ou em um restaurante. Só posso fazer lives, dar aulas gratuitas e contar com as pessoas que assinam meu site, pagando em dólar. Evito sair de casa para não gastar com comida ou gasolina. Minha rotina é sempre a mesma: acordo, escovo os dentes, fumo um cigarro, vou ler alguma coisa, falo com a Carol no vídeo, acompanho um pouco a rotina das crianças (não muito tempo, porque é doloroso), vou rezar... Não posso parar para pensar na dor de meus filhos estarem crescendo sem a minha presença por perto.

A fé é uma companheira constante de Allan no exílio. Ele tenta pensar em tudo que está acontecendo como uma providência de Deus. Para Allan, mesmo a solidão e o abandono devem ser vistos como algo permitido por Deus – então, de alguma maneira, são bons. O mais triste, porém, é sentir-se esquecido:

– Tive que aprender a lidar com o fato de que todas as pessoas que eu ajudei de alguma forma hoje nem perguntam se estou precisando de alguma coisa. Como católico, tive que aprender a lidar com o fato de que nenhum padre ou bispo abre a boca para falar de um católico exilado, mas são pastores que fazem isso. Quem se preocupa comigo em geral são amigos evangélicos, com raríssimas exceções como o Bernardo [Pires Küster]. Mesmo assim, Deus sempre arruma um jeito de colocar almas bondosas no meu caminho. Tenho mais a agradecer do que a reclamar.

Allan não tem esperanças de voltar para o Brasil – ele não se sentiria em segurança no país.

– Meu objetivo agora é reencontrar minha família e ir para um lugar seguro, longe dos comunistas e globalistas. No Brasil, a coisa mais fácil é transformar um assassinato encomendado em um “acidente” ou um “assalto”. Quando o PSDB parou de falar em fraude nas eleições de 2014? Em abril de 2015, quando o filho de Alckmin morreu. O avião de Teori Zavascki caiu depois que ele homologou as delações premiadas na Lava Jato. Toffoli sumiu como ministro depois de ter aparecido com o rosto marcado após um “acidente doméstico”. Os exemplos são muitos.

Em relação às eleições do próximo domingo, Allan prefere não raciocinar na clave da esperança ou desesperança. Mesmo depois das manifestações de 7 de setembro e do forte apoio demonstrado ao Presidente Bolsonaro por todos os lugares em que passa, o jornalista vê com preocupação o cenário eleitoral e acredita que a possibilidade de fraude é um perigo real. Para ele, a direita brasileira ainda padece com o despreparo para enfrentar um movimento revolucionário organizado com décadas de experiência e dois séculos de patrimônio intelectual e cultural acumulado.

– Não se enfrenta o Foro de S. Paulo e os globalistas apenas com bons sentimentos e bom patriotismo. O zelo patriótico não é suficiente para reverter um cenário em que você tem narcotraficantes, juízes, ministros dos tribunais superiores, tapinhas no rosto e “eu te ligo depois”.

Na visão do jornalista, os revolucionários podem fazer a fraude; podem encontrar uma saída burocrática para impugnar Bolsonaro; ou podem, em última instância, permitir a eleição de Bolsonaro mas deixá-lo “tetraplégico”, destruindo a direita inteira e substituindo-a pela “direita permitida”.

Allan de Santos identifica um Cérbero – o cão de três cabeças guardião do inferno – no cenário político brasileiro. A esquerda estaria claramente dividida em três grupos, comandados respectivamente por Lula, Ciro e Temer. Todos esses blocos têm uma dívida a saldar com o Partido Comunista Chinês. Allan lembra que a presença da China comunista no Foro de S. Paulo é recente, e que o sonho de fazer uma União Soviética na América Latina – a chamada Pátria Grande – só se realizaria com o financiamento chinês ou globalista. É possível aproveitar esse cenário para fazer avançar o movimento conservador no Brasil – afinal, as cabeças de Cérbero às vezes entram em conflito umas com as outras. Com a disputa de poder entre Lula, Ciro e Temer, Bolsonaro poderá ganhar mais tempo e ampliar sua esfera de ação, inclusive com indicações à Suprema Corte.

– Mais do que vencer Bolsonaro, a esquerda e o estamento burocrático querem desfazer as inúmeras vitórias do conservadorismo no imaginário do povo brasileiro: a desconfiança das urnas e do sistema eleitoral, o fato de que o brasileiro entendeu que a estrutura do estado brasileiro não tem salvação, a total indiferença do povo aos “valores republicanos”. Pela primeira vez, as pessoas começaram a questionar o Estado de Direito moderno. Isso é uma grande vitória.

O responsável por essa esperança, inimaginável até poucos anos atrás, foi Olavo de Carvalho. Uma das coisas mais dolorosas da vida do exílio, para Allan dos Santos, é a saudade do amigo e mestre, que nos deixou em janeiro.

– Era muito mais fácil quando o Olavo estava aqui. Todo dia eu ia encher o saco dele, nem que fosse pra ver vídeo de tigre (risos). Nas segundas-feiras, era sempre uma aula, e a gente falava sobre tudo: política, filosofia, história, metafísica, literatura, dialética simbólica...

Ao falar do professor, o exilado não contém a emoção.

– Isso prova que eu sou um dos piores alunos dele. Ele sempre dizia para não chorar! Mas ele também disse, pouco antes de morrer, como um último desejo: Permaneçam unidos. Ajudem uns aos outros. Não deixem ninguém para trás.

 Paulo Briguet é escritor e editor-chefe do BSM.

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