DIÁRIO DE UM CRONISTA

Memórias de uma derrota

Paulo Briguet · 9 de Dezembro de 2022 às 16:05

Dois meninos de 12 anos que choraram com a eliminação do Brasil nas quartas-de-final


Faz 40 anos, mas eu me lembro como se fosse hoje. No dia 5 de julho de 1982, o Brasil inteiro parou para ver Brasil e Itália, pelas quartas-de-final da Copa da Espanha. Depois da vitória sobre por 3 a 1 sobre os arqui-inimigos argentinos, ninguém parecia ter a menor dúvida de que aquele time comandado por Telê Santana – em que brilhavam Zico, Sócrates, Falcão e Éder – seria campeão do mundo. Precisávamos apenas de um empate para ir à semifinal.

É incrível como as imagens daquele dia estão nítidas para mim: a TV Semp Toshiba que meu pai comprara numa loja do Mappin, em São Paulo, um ano antes; o álbum de figurinhas Ping Pong sobre a mesa da sala; a lasanha que minha mãe preparou para o almoço (assim como o jogo de hoje, aquele também começou ao meio-dia); uma bandeira do Palmeiras no meio da torcida que se apinhava no Estádio Sarriá; o sorriso de meu avô, o Seu Briguet, ex-juiz da Federação Paulista de Futebol; uma vitrolinha do Mickey em que minha irmã ouvia o disco do Balão Mágico; no criado-mudo, encobrindo o visor do rádio-relógio, um panfleto eleitoral de Franco Montoro, candidato a governador de São Paulo; no meu quarto, um pôster com a letra de Yesterday e fotos dos quatro rapazes de Liverpool.

Nunca perdoarei Paolo Rossi por ter estragado meu sonho com os três gols, malditos sejam para todo o sempre. Até hoje eu tenho sonhos com a cabeçada de Oscar, no último minuto de jogo, e a defesa milagrosa de Dino Zoff, o goleiro italiano, outro vilão daquela tarde. No meu sonho, o jogo termina em 3 a 3. Ah, meu Deus, nunca um empate foi tão esperado na história do futebol.

Gastei todo o meu estoque de lágrimas naquele dia. Quando Falcão empatou o jogo em 2 a 2 e saiu comemorando com as veias saltadas, eu descobri que era possível chorar de alegria. Mas, minutos depois, no terceiro gol de Paolo Rossi, entendi como essa alegria pode ser efêmera como um dente-de-leão na ventania.

Hoje eu também tive uma alegria efêmera – quando Neymar fez aquele golaço e nos levou do Purgatório ao Paraíso. Fiquei tão feliz que saí pulando – e tive um estiramento na panturrilha que me deixou mancando.

Após a derrota nos pênaltis para a Croácia, dei um Google e descobri que Paolo Rossi morreu há exatamente dois anos, em 9 de dezembro de 2020. Espero, sinceramente, que meu ex-vilão esteja no Céu – junto com meu pai, minha mãe e meu avô, os meus consoladores naquela tarde. Esqueçam o que leram linhas atrás: na verdade, eu já o perdoei.

Hoje vi o meu filho chorando quando o Brasil perdeu. Ele tem a idade que eu tinha na tragédia do Sarriá. Um dia ele entenderá que todas as copas do universo não valem a alegria de estar ao lado de quem amamos. Um dia ele entenderá que nos encontraremos todos em um Sarriá chamado eternidade.

Paulo Briguet é escritor e editor-chefe do BSM.

 


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